Novo estudo mapeia áreas prioritárias para auxiliar na sobrevivência da onça-pintada
A onça-pintada (Panthera onca), maior felino das Américas e um dos principais símbolos da biodiversidade brasileira, continua enfrentando desafios para sua sobrevivência. Um novo estudo publicado na revista Nature, liderado pelo pesquisador Guilherme Alvarenga, da Wildlife Conservation Research Unit (WildCRU), da University of Oxford, contou com a participação de outros pesquisadores, incluindo as integrantes do PAO, Carolina Esteves, Daiana Polli e Cláudia Campos, e traz um dos retratos mais completos já feitos sobre a situação da espécie em sua área de distribuição.
A pesquisa buscou entender como as onças-pintadas respondem às mudanças no ambiente e identificar quais áreas ainda oferecem condições ambientais adequadas à sua sobrevivência — informações essenciais para orientar estratégias de conservação.

Onça-pintada com colar GPS na região do Boqueirão da Onça, bioma Caatinga. Foto: Arquivo Programa Amigos da Onça.
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Esses grandes felinos têm populações naturalmente pequenas, o que os torna mais vulneráveis a alterações ambientais. Historicamente, a espécie ocupava uma vasta área, do sudoeste dos Estados Unidos ao centro da Argentina. Atualmente, sua distribuição foi reduzida em cerca de 50%, principalmente em razão da perda de habitat e conflitos com atividades humanas.
Hoje, as maiores populações estão concentradas na Amazônia, no Pantanal e nas florestas da América Central (Maya Forest), enquanto em outras regiões a espécie sobrevive em grupos menores, muitas vezes isolados e sob alto risco de extinção local. Mesmo dentro dessas áreas consideradas centrais, há grande variação na forma como as onças utilizam o habitat, refletindo diferenças na qualidade ambiental e na intensidade das pressões antrópicas.
Para entender melhor esse cenário, os pesquisadores reuniram um dos maiores conjuntos de dados já compilados para a espécie, com informações obtidas a partir de 172 onças-pintadas monitoradas por colares com GPS. A partir desses dados, foi possível criar um mapa que indica onde a espécie encontra condições ambientais mais favoráveis, ao longo de toda a sua distribuição histórica.
Os resultados confirmam que ambientes florestais continuam sendo os mais favoráveis, com destaque para a Amazônia e as florestas da América Central, no sudeste do México, que formam os maiores blocos contínuos de habitat de alta qualidade para a espécie. Outras regiões também se destacam, como o Gran Chaco, o Pantanal — na fronteira entre Brasil, Paraguai e Bolívia — e remanescentes da Mata Atlântica. Apesar do protagonismo da Amazônia, outros biomas também desempenham papel importante. Na Mata Atlântica, as áreas mais promissoras estão na Serra do Mar e no Corredor Verde de Misiones, embora a forte fragmentação ainda represente um grande desafio. Na Caatinga, onde a espécie é considerada criticamente ameaçada, destacam-se regiões como a Serra das Confusões e a região do Boqueirão da Onça (área de atuação do Programa Amigos da Onça). Já o Cerrado funciona como um importante corredor ecológico entre diferentes biomas, mesmo sob intensa pressão da expansão agrícola no bioma.
Um dado interessante é que o modelo também apontou como ambientalmente adequadas algumas regiões onde a onça-pintada não ocorre atualmente ou não possui registros confirmados, como a Baja California, no México, o sul do Texas, nos Estados Unidos, e partes do centro e sul da Argentina. Isso mostra que nem sempre um ambiente favorável garante a presença da espécie, já que fatores históricos, barreiras geográficas e impactos das atividades humanas também influenciam sua distribuição.
Previsão da adequação de habitat para onças-pintadas (Panthera onca) ao longo da distribuição histórica da espécie. Fonte: Alvarenga et al., 2025.
Ao analisar diferentes ecorregiões de distribuição da espécie — grandes áreas com características ecológicas semelhantes —, os pesquisadores observaram que, embora as florestas tropicais úmidas concentrem os melhores habitats, savanas, campos e florestas secas também são importantes. Isso mostra que a conservação da espécie depende de uma diversidade de ambientes.
Habitats altamente adequados para a onça-pintada, considerando cenários baseados na distribuição geográfica (A) e na ecorregião (B). Fonte: Alvarenga et al, 2025.
Os resultados indicam ainda que a onça-pintada tende a evitar áreas intensamente modificadas pelo ser humano e a selecionar ambientes mais produtivos, especialmente próximos à água. Rios e áreas alagadas são fundamentais tanto para deslocamento quanto para caça, enquanto regiões com vegetação mais densa tendem a oferecer maior disponibilidade de presas.
Em contrapartida, fatores como alta densidade populacional humana, expansão da pecuária, desmatamento e degradação ambiental aparecem como as principais ameaças à sua sobrevivência. O estudo também aponta que a espécie prefere áreas de menor altitude e com menor variação climática, embora demonstre grande capacidade de adaptação, ocorrendo desde regiões mais secas até florestas tropicais e ambientes alagados.
Ao analisar o papel das áreas protegidas, os pesquisadores observaram que, embora ocupem menos de um terço da área de distribuição da espécie, essas áreas concentram a maior parte dos habitats mais adequados, indicando que estão, em geral, bem posicionadas para sua conservação.
Ainda assim, uma parcela significativa dos ambientes mais favoráveis permanece fora de áreas oficialmente protegidas. O Brasil, por sua vez, concentra mais da metade da área atual de ocorrência da espécie e também abriga a maior extensão de habitats adequados, mas nem todo esse território conta com proteção legal.
Como a onça-pintada necessita de grandes áreas naturais para sobreviver, sua conservação acaba beneficiando muitas outras espécies que compartilham os mesmos ambientes, um fenômeno conhecido como efeito “guarda-chuva”.
Nesse sentido, proteger a onça-pintada não é apenas conservar um animal emblemático, mas também garantir o equilíbrio de ecossistemas inteiros. Os resultados do estudo reforçam a importância de ampliar e fortalecer áreas protegidas, além de garantir a conectividade entre diferentes populações da espécie. Em um cenário de crescentes pressões sobre a natureza, fortalecer políticas públicas e estratégias de planejamento territorial será decisivo para garantir a perpetuidade da espécie nas próximas décadas.
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