30 de agosto, Dia Internacional da Onça-parda. Momento de celebrar esse grande predador que percorre as paisagens das Américas.
O nome suçuarana é um dos mais antigos utilizados no Brasil para designar a onça-parda, Puma concolor, estando documentado no Tratado Descritivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares de Sousa. De origem tupi, o termo suçuarana deriva de sûasu, “veado”, e –rana, “semelhante”, apresentando o sentido de “semelhante ao veado” ou “de cor semelhante à do veado”.
Por ser uma espécie amplamente distribuída em todos os biomas brasileiros, a suçuarana também é conhecida por diversos outros nomes populares, como puma, onça-parda, leão-baio, onça-vermelha, jaguaruana, bodera, lombo-preto e massaroca.

Figura 1. Representações de Puma concolor. À esquerda, puma sul-americano (Puma concolor concolor); à direita, puma norte-americano (Puma concolor cougar). Fonte: Bellani (2020).
A suçuarana não tem um padrão de manchas que facilite sua identificação. Sua pelagem pode variar de tons de ruivo, bege, acastanhado e palha. Geralmente, a ponta da cauda apresenta um tufo de pelos mais escuros, e sua vocalização consiste em miados graves, semelhantes aos emitidos por felinos domésticos, sem a presença do esturro característico da onças-pintada. Os filhotes apresentam manchas na pelagem durante os primeiros meses de vida. Essas marcas desaparecem gradualmente à medida que crescem, dando origem à pelagem uniforme típica dos adultos.
Diante das matas secas da Caatinga, dos campos úmidos do Pampa e dos campos do Cerrado, surge a pergunta: se não dá para contar os indivíduos pelos padrões de manchas, como os pesquisadores identificam e monitoram essa espécie?
Apesar da ausência de um padrão único de manchas na pelagem dos adultos, os pesquisadores dispõem de diferentes métodos para identificar indivíduos dessa espécie na natureza.
Além de pegadas, vestígios e observação direta, as armadilhas fotográficas permitem comparar características do corpo de cada indivíduo. Para isso, em alguns estudos, duas câmeras são instaladas em lados opostos de uma trilha ou passagem utilizada pelos animais, posicionadas de modo a registrar simultaneamente os dois lados do corpo de cada indivíduo.
Assim, os pesquisadores usam as chamadas “marcas naturais” para a identificação individual. Como a pelagem é uniforme, características como cicatrizes e ferimentos, marcas nas orelhas, formato e posição da cauda, porte, estrutura corporal e variações na coloração podem ser utilizadas para reconhecer e diferenciar os indivíduos, formando um verdadeiro “álbum de retratos” da população.

Figura 2. Foto de captura por armadilha fotográfica de onça-parda. Fonte: Arquivos do Programa Amigos da Onça.

Figura 3. Foto de captura por armadilha fotográfica de um filhote de onça-parda. Observe que o filhote ainda apresenta manchas pelo corpo. Com o crescimento, essa coloração desaparece gradualmente, até dar lugar à pelagem uniforme característica dos adultos. Fonte: Arquivos do Programa Amigos da Onça.
As suçuaranas são territorialistas e podem se envolver em disputas por território e parceiros. Mordidas na face, marcas decorrentes de disputas e outros ferimentos podem permanecer por longos períodos e, quando visíveis nas fotografias, ajudam na identificação individual. Chamados também de “entalhes”, os cortes, mordidas ou pequenas faltas de pelo na borda da orelha são extremamente comuns em adultos e altamente visíveis nas fotos. Embora mais sutil, a curvatura da ponta da cauda, se é reta, levemente curvada ou com um “nó” decorrente de uma fratura antiga, ajuda na diferenciação.
Os machos adultos são, em geral, maiores que as fêmeas, podendo pesar entre 50 a 80 kg, enquanto as fêmeas geralmente pesam entre 30 e 50 kg. O tamanho corporal, entretanto, varia entre regiões e biomas. Na Caatinga, por exemplo, esses animais tendem a apresentar menor porte corporal, com adultos pesando entre 30 e 50 kg. Além disso, a proporção entre o comprimento das patas e do tronco varia.
A variação na tonalidade da pelagem também pode ser utilizada como uma característica complementar. Embora não seja exclusiva de cada indivíduo, a coloração pode ajudar a descartar uma identificação equivocada quando analisada com outras características. Por exemplo, se uma foto ou um vídeo mostra um animal mais ruivo e outro um acastanhado, essa diferença pode ajudar a indicar que os indivíduos diferentes, especialmente quando as fotos ou vídeos foram feitos em condições semelhantes.

Figura 4. Pesquisadores do Programa Amigos da Onça durante a instalação de câmera fotográfica para o monitoramento das onças. Fonte: Acervo do Programa Amigos da Onça.
A telemetria complementa as armadilhas fotográficas ao permitir acompanhar os deslocamentos dos animais. Para isso, indivíduos podem ser capturados e equipados com coleiras contendo dispositivos GPS, que registram suas localizações ao longo do tempo. Esses registros permitem aos pesquisadores acompanhar os movimentos dos animais e analisar aspectos como deslocamento, reprodução, indivíduos maduros, área de vida e uso do espaço, contribuindo para entender melhor a saúde e a dinâmica da população.

Figura 5. Área de uso de exemplar de Puma concolor reintroduzido no entorno do Parque Estadual da Serra do Brigadeiro (PESB), localizado na Zona da Mata em Minas Gerais. Fonte: Barros et al. (2011).
A Figura 5 apresenta os resultados de um estudo realizado no Parque Estadual da Serra do Brigadeiro (PESB) e em seu entorno, que acompanhou uma onça-parda reintroduzida que foi monitorada por 110 dias por meio de radiotelemetria VHF. A área de uso estimada foi de aproximadamente 26 km², considerada uma das menores registradas para um macho da espécie. Mesmo diante do relevo acidentado da área de soltura,a radiotelemetria por meio do sistema VHF mostrou-se satisfatória para o rastreamento da suçuarana após a soltura.

Figura 6. Colares de monitoramento importados, confeccionados sob medida para cada espécie, garantindo maior adequação ao porte e às características dos animais. Fonte: Acervo do Programa Amigos da Onça.

Figura 7. Instalação de colar com GPS em onça-parda para monitoramento de seus deslocamentos e uso do espaço por telemetria. Fonte: Acervo do Programa Amigos da Onça.
Na prática, os dados obtidos com a telemetria ajudam a monitorar os movimentos dos animais e a identificar como eles usam a paisagem. Em um estudo realizado entre 2009 e 2017 no Triângulo Mineiro, onde foram usadas armadilhas fotográficas e radiotelemetria com GPS, os pesquisadores descobriram os locais de abate das presas através de aglomerados de pontos de GPS, conseguiram determinar uma área média de vida de 209,4 ± 46,5 km² e perceberam que os machos ocupam áreas maiores e percorrem distâncias mais longas do que as fêmeas.
Além da localização, os dados registrados sobre o local, o horário e o comportamento pelas armadilhas fotográficas trazem informações valiosas para o monitoramento da espécie. Em um dos estudos, os pesquisadores analisaram os padrões de atividade da onça-parda e notaram diferenças entre os sexos, os machos costumam ser mais ativos à noite, enquanto as fêmeas estavam em movimento tanto de dia quanto de noite. Esses padrões, junto com os horários de atividade, que podem ser diurnos, crepusculares ou noturnos, ajudam a entender os registros e a forma como os indivíduos utilizam o ambiente.
Assim, com os dados do GPS, o pesquisador pode determinar a área de vida do animal e reposicionar estrategicamente as câmeras para tentar registrar todos os indivíduos daquela população, reduzindo possíveis vieses no monitoramento.

Figura 8. Mapa da área de estudo, com a localização das estações de armadilhas fotográficas, dos locais de predação de onças-pardas e a classificação da cobertura do solo em Araguari, Minas Gerais, Brasil, entre 2012 e 2016. Fonte: Ecologia da onça-parda: Interações de um predador de topo em um agrossistema. Azevedo (2017).
Um outro estudo, publicado em 2026, chamado Puma in Check: How Domestic Dogs Influence the Behavior of a Top Predator, mostrou que a presença de cães pode alterar o comportamento da onça-parda. Os pesquisadores notaram que esses animais costumam evitar áreas onde cães foram detectados, retornando, em média, cerca de 74 horas após o registro de cães. Esses achados sugerem que as mudanças causadas pela atividade humana podem afetar a detecção e o monitoramento da espécie, e que esses fatores precisam ser levados em conta na análise dos dados coletados em campo.
Mas por que todo esse trabalho?
A identificação individual também é fundamental para estimar parâmetros populacionais. A partir de modelos de captura-recaptura, os pesquisadores podem estimar a abundância ou a densidade de uma população e acompanhar mudanças ao longo do tempo.
Ao mapear onde cada indivíduo é registrado ao longo do tempo, é possível identificar a sobreposição das áreas de vida e o compartilhamento de recursos, o que ajuda a entender a pressão por espaço que esses animais enfrentam. Na Caatinga, as áreas de vida das onças-pardas e das onças-pintadas podem se sobrepor, e a escassez de água e presas pode fazer com que esses animais se desloquem mais em busca de recursos.
Acompanhar uma fêmea específica ao longo dos anos revela com que frequência ela tem filhotes, quantos sobrevivem e qual o intervalo entre as gestações. Isso é crucial para calcular o potencial de recuperação de uma população em risco.
Com essas informações, as ações de conservação podem ser direcionadas de forma mais eficaz.
Por exemplo, se conseguimos identificar que uma onça com uma cicatriz na pata é responsável por ataques ao gado na região, é possível direcionar medidas de manejo, como a construção de cercas elétricas e currais para proteger os animais de produção, além de ações de educação ambiental naquela área, em vez de simplesmente tentar perseguir ou eliminar onças. Além disso, identificar onças que se aproximam de áreas urbanas ajuda a monitorar esses animais e planejar corredores ecológicos e a reduzir o risco de atropelamentos.
Embora existam diferentes métodos para identificar e monitorar indivíduos, sua conservação ainda representa um grande desafio. Conhecer cada indivíduo é essencial para proteger a espécie. Por trás de cada fotografia, registro e observação direta realizada em campo, existe um trabalho cuidadoso de identificação, monitoramento e pesquisa que fornece informações fundamentais para compreender a ecologia da onça-parda e orientar ações de conservação desse importante predador da fauna brasileira.
Referências
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