Animais domésticos também podem contribuir para a disseminação de doenças que afetam a fauna silvestre

 

Segundo o Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), cerca de 475 milhões de animais são atropelados nas rodovias brasileiras todos os anos, evidenciando a dimensão das ameaças enfrentadas pela fauna. Somando-se a esses dados, o desmatamento, a caça e as queimadas dizimam incontáveis espécies. Porém, além dessas ameaças visíveis, há outra ameaça silenciosa, a circulação de agentes infecciosos entre animais domésticos e silvestres.

De acordo com as informações do site do Senado Federal, o Brasil tem a terceira maior população de animais de estimação do mundo, ficando atrás apenas da China, em segundo lugar, e dos Estados Unidos em primeiro. Esse número expressivo de animais de estimação torna ainda mais relevante e delicada a discussão sobre a tutela e responsabilidade.

 

         

Registro de cães domésticos na região do Boqueirão da Onça. Foto: Arquivo Programa Amigos da Onça, do Instituto Pró-Carnívoros.

 

Cão encontrado em remanscente de Mata Atlântica. Fonte: Fernando Riberio.

 

O risco não está restrito aos animais abandonados ou que vivem em estado feral. Cães e gatos domésticos, quando circulam sem supervisão por áreas naturais, também podem entrar em contato com a fauna silvestre. Entre as espécies expostas estão espécies de tatus, cachorros-do-mato, lobos-guará, raposas-do-campo, jaguatiricas, gatos-maracajá e as nossas queridas onça-pintada e onça-parda.

Entre  alguns dos agentes e doenças, há raiva, cinomose, toxoplasmose, sarna, infecções ligadas a vírus, além de parasitas como pulgas e nematódeos.

 

Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) em áreas próximas a atividade humanas,  onde pode ocorrer interação com animais domésticos. Foto: Projeto Caatinga Potiguar – Paulo Marinho.

 

Essas doenças podem ser transmitidas quando cães ou gatos sofrem mordidas, arranhões ou têm contato próximo com animais selvagens, passando patógenos por meio de saliva ou sangue. Também acontece quando animais silvestres tocam em fezes, urina ou outras secreções que estão no solo. Além disso, há vetores e parasitas como pulgas, mosquitos e carrapatos.

 

Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) com sinais compatíveis de sarna sarcóptica. As imagens mostram áreas de alopecia, alterações na pelagem, crostas e fissuras na pele. Os registros fazem parte do estudo The Sarcoptic Mange in Maned Wolf (Chrysocyon brachyurus): Mapping an Emerging Disease in the Largest South American Canid, que investigou a ocorrência da doença em lobos-guará de vida livre no Sudeste do Brasil

 

O estudo conduzido pela pesquisadora Isabela Zanoti, da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Associação Mata Ciliar, publicado na revista Pesquisa Veterinária Brasileira em 2026, investigou a morte de 35 canídeos silvestres no estado de São Paulo.

E embora os atropelamentos tenham sido a principal causa de morte entre os canídeos analisados, os exames também revelaram a presença de diferentes agentes infecciosos e parasitários, incluindo o vírus da cinomose canina e o ácaro responsável pela sarna sarcóptica. Os autores destacam que a sobreposição entre animais silvestres e domésticos pode favorecer a circulação de determinados agentes infecciosos entre esses grupos.

O estudo intitulado “Diet of Free-ranging Cats and Dogs in a Suburban and Rural Environment, South-Eastern Brazil”, trouxe outra questão que merece ser lembrada. Os pesquisadores trouxeram dados sobre a dieta e a abundância de cães e gatos errantes que vivem soltos, na área periurbana e rural, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, ESALQ, da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, SP.

A pesquisa obteve dados alarmantes sobre a abundância de animais errantes que transitam na área estudada, sendo 81 cães e 42 gatos. Ao coletar fezes para a análise de conteúdo alimentar, os pesquisadores concluíram que invertebrados foram os mais consumidos por ambas as espécies, 63,24% para gatos e 57,05% para cães. Depois, mamíferos com 20,51% para gatos e 25,15% para cães, sendo os roedores os mais frequentes. Aves e répteis foram encontrados, mas em menor proporção. Ao fim, estimou-se que cada cão consome 16,76 e 25,42 kg de mamíferos por ano, enquanto cada gato consome entre 2,01 e 2,9 kg de mamíferos por ano.

Dessa forma, o artigo conclui que a alta população desses animais e sua dieta oportunista, exercem uma pressão de predação significativa sobre a fauna silvestre local, atingindo principalmente pequenos mamíferos. Por isso, os autores sugerem medidas de manejo, como educar a população sobre riscos e abandonos e a implementação de programas de controle para minimizar os impactos negativos sobre a biodiversidade da região. O estudo também se tornou uma referência para pesquisas posteriores sobre os impactos de cães e gatos ferais sobre a fauna silvestre.

 

Gato doméstico predando uma presa.Fonte: EDDY VAN 3000. Cat with prey. Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0. In: WOINARSKI, John; MURPHY, Brett; LEGGE, Sarah. The impact of cats in Australia. 2020.

 

O conceito de Saúde Única ajuda a entender que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas. Nesse contexto, a circulação de agentes infecciosos entre animais domésticos e silvestres não representa apenas uma preocupação da medicina veterinária, mas também uma questão de conservação e de saúde pública. Algumas dessas doenças podem afetar populações da fauna local, enquanto determinados agentes também podem circular entre animais e seres humanos. Essas interações tornam-se ainda mais relevantes em ambientes onde áreas naturais estão situados nos limites de áreas com presença humana, tais como cidades e propriedades rurais.

Representação da abordagem de Saúde Única, destacando a interconexão entre saúde humana, animal e ambiental. Fonte: Instituto Ampara Animal (2025).

 

Muitas espécies podem atuar como hospedeiros e reservatórios de determinados agentes infecciosos, contribuindo para sua manutenção e circulação no ambiente, mesmo quando apresentam poucos ou nenhum sinal clínico.

 

Jaguatirica (Leopardus pardalis) registrada por armadilha fotográfica em meio à vegetação da Caatinga. Fonte: Arquivos do Programa Amigos da Onça.

 

A presença desses agentes chama atenção para um problema que vai além da morte de animais isolados. Em populações silvestres, especialmente aquelas que já sofrem com a perda e a fragmentação de habitat, a introdução de doenças pode representar uma pressão adicional sobre a sobrevivência e a reprodução dos indivíduos. E é justamente nas áreas onde os ambientes naturais entram em contato com propriedades rurais, cidades e áreas ocupadas por pessoas que essa interação se torna mais provável.

Dessa forma, a transmissão de agentes infecciosos não acontece em apenas uma direção. Animais domésticos podem transmitir patógenos para populações de animais silvestres. Por outro lado, os animais silvestres também podem manter e transmitir determinados agentes para os animais domésticos e, em alguns casos, para os seres humanos.

Nesse cenário, cães e gatos domésticos deixam de ser apenas animais de companhia e passam a fazer parte de uma questão maior de conservação. A forma como esses animais são manejados pode determinar o quanto eles interagem com a fauna e com os agentes infecciosos presentes nesses ambientes.

 

Referências

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