Tatu-bola: o pequeno endêmico do Brasil em risco

 

Pertencentes aos Xenarthra, mesmo grupo dos tamanduás e das preguiças, os tatus são animais de características marcantes. Carapaça, olhos pequenos, olfato apurado e garras adaptadas para escavar a terra atrás de insetos, raízes e demais recursos alimentares.

De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Brasil possui 11 espécies de tatus, dentre elas o tatu-peba (Euphractus sexcinctus), o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), o tatu-de-rabo-mole-pequeno (Cabassous unicinctus) e o tatu-canastra (Priodontes maximus), a maior espécie de tatu do mundo. Já o tatu-bola destaca-se por ser uma das menores espécies e por sua capacidade de se enrolar completamente como estratégia de defesa.

 

Tatu-canastra, a maior das espécies de tatus. Fonte: Projeto Tatu-canastra / Icas.

 

O tatu-bola é um mamífero terrestre da família Chlamyphoridae, pertencente ao gênero Tolypeutes. No Brasil, existem duas espécies, o tatu-bola-do-nordeste (Tolypeutes tricinctus), endêmico do país e encontrado na Caatinga e no Cerrado, nos estados de Minas Gerais, Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Goiás, Tocantins, Piauí, Paraíba, Ceará e Maranhão. E o tatu-bola-do-centro-oeste (T. matacus), conhecido como “mataco”, tatu-bola-do-sul entre outros, que ocorre no Brasil e em outros países da América do Sul como Bolívia, Paraguai e Argentina.

 

Distribuição geográfica do tatu-bola-do-nordeste (T. tricinctus). A área em vermelho destaca a ocorrência da espécie, que é endêmica do Brasil e habita principalmente os biomas da Caatinga e do Cerrado. O detalhe amplia a visualização da região Nordeste. Fonte: IUCN/SSC Anteater, Sloth and Armadillo Specialist Group

 

Alimentando-se principalmente de formigas e cupins, o tatu-bola-do-nordeste tem massa corporal variável de 1 a 1,8 kg e pode chegar a medir cerca de 23 a 25 centímetros de cabeça e corpo. Possuem cinco garras nas patas dianteiras, o que os faz diferenciar do tatu-bola-do-centro-oeste, que possui apenas quatro garras.

 

Tatu-bola-da-nordeste. Fonte: Acervo do Programa Amigos da Onça).

 

Adaptado a ambientes onde alimento e água podem ser escassos, o tatu-bola apresenta uma taxa metabólica relativamente baixa para um mamífero de seu porte. Seu metabolismo basal corresponde a cerca de 40% a 60% do esperado para mamíferos placentários de massa corporal semelhante. 

A reprodução do tatu-bola-do-nordeste ainda é pouco conhecida. De acordo com o ICMBio (2018), as fêmeas produzem geralmente um filhote por gestação, embora ocasionalmente possam nascer dois. O período de gestação é estimado em aproximadamente 120 dias, mas ainda existem lacunas sobre demais aspectos reprodutivos.

Além de fazer parte da biodiversidade da Caatinga e do Cerrado, o tatu-bola exerce funções importantes no ecossistema. Ao escavar o solo em busca de alimento e abrigo, contribui para sua movimentação e alteração de características físicas, podendo favorecer a circulação de matéria orgânica e a formação de pequenos espaços utilizados por outros organismos. Dessa forma, sua presença está relacionada à manutenção das relações ecológicas dos ambientes em que ocorre.

 

Em resposta a uma ameaça, o tatu-bola pode se enrolar completamente, protegendo as partes mais vulneráveis do corpo sob a carapaça. Essa estratégia de defesa é uma das características mais marcantes do gênero Tolypeutes. Fonte: Acervo do Programa Amigos da Onça.

 

Na região do Boqueirão da Onça, norte da Bahia, o tatu-bola-do-nordeste também é registrado por meio de armadilhas fotográficas. Embora o monitoramento do Programa Amigos da Onça tenha como um de seus principais objetivos o estudo da ocorrência e atividade de grandes mamíferos, como a onça-pintada e onça-parda, as câmeras registram outras espécies da fauna local. Entre 2016 e 2025, foram obtidos 89 registros de tatu-bola-do-nordeste (T. tricinctus) na região, evidenciando a presença da espécie em uma das áreas de Caatinga consideradas importantes para sua conservação. Esses registros contribuem para ampliar o conhecimento sobre a distribuição e a ocorrência da espécie, especialmente em uma região submetida a diferentes pressões ambientais.

 

Tatu-bola-do-nordeste em posição defensiva. Fonte: Acervo do Programa Amigos da Onça.

 

Apesar de suas adaptações, o tatu-bola não está imune às transformações provocadas pela atividade humana. A espécie é classificada como Vulnerável (VU) pela IUCN, e entre as principais ameaças estão a perda e alteração de habitat, além da pressão de caça em algumas regiões.

Um importante exemplo de iniciativa voltada à conservação da espécie é o Refúgio de Vida Silvestre (RVS) Tatu-Bola, criado em 2015 no sertão de Pernambuco. Com 110.110,25 hectares, a unidade abrange os municípios de Petrolina, Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista e foi criada com o objetivo de proteger áreas de Caatinga e espécies endêmicas, raras e ameaçadas, incluindo o tatu-bola-do-nordeste.  

A criação da unidade ocorreu após o aumento da visibilidade do tatu-bola, escolhido como mascote da Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Entretanto, a implantação da RVS também resultou em conflitos socioambientais envolvendo moradores, agricultores, pesquisadores e órgãos públicos, entre outros fatores, à sobreposição de áreas, às restrições de uso do território e à insuficiência de informações e participação das comunidades no processo de criação da unidade.  Esses conflitos permanecem presentes, em 2025, a CPRH, Agência Estadual do Meio Ambiente, realizou consultas públicas com comunidades da região para discutir uma proposta de recategorização da unidade para Área de Proteção Ambiental (APA), categoria de uso sustentável.  O caso evidencia que a conservação do tatu-bola envolve não apenas a proteção de seu habitat, mas também a necessidade de conciliar os objetivos de conservação com as atividades e demandas das populações que vivem no território.

 

Fuleco, mascote oficial da Copa do Mundo de 2014. Fonte: Site Oficial da FIFA®.

 

O estudo intitulado “Estudo etnoecológico da espécie tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) em uma comunidade do entorno da Reserva Natural Serra das Almas, Ceará-Piauí” analisou o conhecimento e a percepção de moradores locais sobre o tatu-bola.

O trabalho buscou avaliar o conhecimento baseado na vivência e a percepção ambiental de 205 moradores da área urbana de Buriti dos Montes (PI), município no entorno da reserva, sobre a biologia, ecologia e conservação do tatu-bola.

A pesquisa revelou que, embora o tatu-bola seja amplamente conhecido pela comunidade, existe pouco conhecimento sobre suas características ecológicas. Cerca de 95% dos entrevistados afirmaram conhecer ou já ter ouvido falar da espécie, mas 78% desconheciam o número de filhotes, 80% não sabiam do que o animal se alimenta e 67% desconheciam seu hábitat. A caça também foi mencionada, 18% dos entrevistados afirmaram praticá-la. Apesar disso, 88% consideraram importante preservar a espécie e 76% tinham conhecimento de que ela está ameaçada de extinção. Os motivos citados incluíram valores ecológicos, culturais como ser símbolo da Copa do Mundo de 2014 e a preocupação com a extinção.

Os resultados desse estudo indicaram que, apesar da valorização do tatu-bola pela comunidade, ainda existem lacunas no conhecimento sobre sua biologia e ecologia, reforçando a importância de ações de educação ambiental e de alternativas que contribuam para reduzir a pressão da caça e proteger o hábitat da espécie.

No Ceará, o cenário é ainda mais preocupante. As informações do  “Livro Vermelho dos Animais Ameaçados de Extinção do Ceará”, publicado pela Secretaria do Meio Ambiente (SEMA) do estado, de 2025, mostram que, diante das evidências históricas, estima-se que tenha ocorrido um declínio de mais de 80% no número de indivíduos da espécie no Ceará nos últimos dez anos.

 

Tatu-bola-da-caatinga em sua toca. Fonte: Associação da Caatinga.

 

Em agosto de 2014, a expedição científica ao Cânion do Rio Poti, uma área isolada e de difícil acesso localizada entre o Piauí e o Ceará, no norte da Caatinga, foi organizada pela Associação Caatinga com o objetivo de coletar dados biológicos, como amostras de sangue e medidas corporais, para avaliar a saúde da população de tatus e mapear sua distribuição. 

A expedição apontou que 45% da cobertura vegetal da região onde o tatu-bola é encontrado já foi perdida. Além disso, outros fatores contribuem para o risco à espécie, como a caça, as mudanças climáticas, a construção de barragens para exploração de recursos hídricos e a mineração ilegal, que afetam áreas essenciais para sua sobrevivência. (NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL, 2019). 

A criação do Parque Estadual do Cânion do Rio Poti em 2017, com 24 mil hectares no lado piauiense, foi apontada como uma medida importante para proteger a espécie e toda a biodiversidade local.

 

Tatu-bola capturado para a avaliação, coletas e medição na Expedição ao Cânion do Rio Poti. Fonte: Gustavo Fonseca.

 

A proteção do tatu-bola-do-nordeste requer, assim, não apenas a preservação de habitats naturais, mas também a mitigação da caça, a promoção do conhecimento e a inclusão das comunidades que interagem com a espécie. Conhecer o tatu-bola é um passo inicial, entender sua função no ecossistema e os desafios enfrentados para sua conservação é essencial para assegurar sua continuidade na Caatinga brasileira.

 

Referências

ASSOCIAÇÃO CAATINGA. Ações de conservação do tatu-bola: o retrospecto da Associação Caatinga. Associação Caatinga, [s. d.]. Disponível em: https://www.acaatinga.org.br/acoes-de-conservacao-do-tatu-bola-o-retrospecto-da-associacao-caatinga/.

BIOFACES. Espécies de tatus. Blog Biofaces, [s. d.]. Disponível em: https://blog.biofaces.com/especies-de-tatus/. 

CEARÁ (Estado). Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da Fauna do Ceará. Governo do Estado do Ceará, [s. d.]. Disponível em: https://www.ce.gov.br/sema/lista-vermelha-de-especies-ameacadas-da-fauna-do-ceara/.

FIFA. World Cup mascots in history. [S. l.]: FIFA, [s. d.]. Disponível em: https://www.fifa.com/en/articles/world-cup-mascots-in-history.

GIBB, Jessica. Tolypeutes tricinctus (Brazilian three-banded armadillo). Animal Diversity Web, 2000. Disponível em: https://animaldiversity.org/accounts/Tolypeutes_tricinctus/.

INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE (ICMBio). Tatus, tamanduás e preguiças brasileiros. Brasília, DF: ICMBio, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/centros-de-pesquisa/primatas-brasileiros/central-de-conteudos/tatus-tamanduas-e-preguicas-brasileiros.

IUCN/SSC ANTEATER, SLOTHS AND ARMADILLO SPECIALIST GROUP. Fatos sobre o tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) para crianças. Xenarthrans.org, [s. d.]. Disponível em: https://xenarthrans.org/pt/fatos-sobre-o-tatu-bola-tolypeutes-tricinctus-para-criancas/.6.

IUCN/SSC ANTEATER, SLOTHS AND ARMADILLO SPECIALIST GROUP. Tatu-bola. Xenarthrans.org, [s. d.]. Disponível em: https://xenarthrans.org/pt/tatus/tatu-bola/.

LACERDA, Aldenice Correia; ALBUQUERQUE, Janaina Vital de; GALVÍNCIO, Josiclêda Domiciano. Área legalmente protegida sob conflito: o caso da Reserva de Vida Silvestre Tatu-Bola, Estado de Pernambuco, Brasil. Revista Brasileira de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, v. 4, n. 7, p. 191-202, 2017. DOI: 10.21438/rbgas.040719.

NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Tatu-bola luta pela sobrevivência em região esquecida entre o Piauí e o Ceará. National Geographic Brasil, 22 out. 2019. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2019/10/tatu-bola-luta-pela-sobrevivencia-em-regiao-esquecida-entre-o-piaui-e-o-ceara.

PROJETO TATU-CANASTRA. Projeto Tatu-Canastra. Revista Clínica Veterinária, [s. d.]. Disponível em: https://www.revistaclinicaveterinaria.com.br/clinica-veterinaria/projeto-tatu-canastra/. 

REIS, Marcelo Lima; CHIARELLO, Adriano G.; CAMPOS, Claudia Bueno de; MIRANDA, Flávia et al. Tolypeutes tricinctus (Linnaeus, 1758). In: INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE (org.). Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Brasília: ICMBio, 2018. v. 2, p. 53-58. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/334001007_Tolypeutes_tricinctus_Linnaeus_1758. 

REVISTA TÓPICOS. Refúgio de Vida Silvestre Tatu-Bola (PE): conflitos socioambientais, governança e participação social. Revista Tópicos, [s. d.]. Disponível em: https://revistatopicos.com.br/artigos/refugio-de-vida-silvestre-tatu-bola-pe-conflitos-socioambientais-governanca-e-participacao-social. 

SENA, Liana Mara Mendes de. Ocupação, atividade e efeito da caça de tatu-bola Tolypeutes tricinctus na Caatinga, Nordeste do Brasil. Orientador: Flávio Henrique Guimarães Rodrigues. Coorientador: Rodrigo Lima Massara. 2020. Tese (Doutorado em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/items/2311ad73-7e53-4970-886f-c7a23003dd51. 

DA CAÇA ao desmatamento: as ameaças ao menor e único tatu exclusivo do Brasil. O Eco, [S. l.], 2021.[2] Disponível em: https://oeco.org.br/reportagens/da-caca-ao-desmatamento-as-ameacas-ao-menor-e-unico-tatu-exclusivo-do-brasil/.

 

 

 

 

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