Herança Natural: Plantas Medicinais da Caatinga e a Etnobiologia das Comunidades Locais

A relação entre o homem e a natureza é intrínseca à nossa evolução enquanto espécie, e as plantas têm um papel fundamental nisso. Do uso na composição paisagística até a medicina ancestral, a flora tem lapidado culturas e gerações ao longo do tempo, exercendo um papel crucial para a manutenção da vida como conhecemos atualmente. Hoje apresentaremos a herança natural da Caatinga por meio das plantas medicinais encontradas no bioma, junto da relação com as comunidades locais – essenciais para a manutenção desses saberes. Vamos descobrir juntos?

Angico - Anadenanthera colubrina - Vertflora Comércio e Produção de Mudas LTDA

Na foto (via: VetFlora), o Angico (Anandenanthera colubrina), que é composto por tanino e resina, é utilizado para o tratamento de doenças de via respiratória, como a bronquite. (EMBRAPA, 2018)

 

Glossário (via Dicio):

Etnologia: ciência que analisa documentos registrados pela descrição das várias etnias ou da cultura de um povo;

Farmacologia: estudo dos efeitos dos medicamentos sobre os seres vivos;

Botânica: parte da biologia que se dedica à análise do reino vegetal;

Fitobotânica: sinônimo de “botânica”;

Ações antrópicas: resultante da ação do homem.

PLANTAS MEDICINAIS DA CAATINGA E SEUS USOS

A Caatinga é um bioma com partes de sua vegetação restrita ao território brasileiro, com uma área de cobertura vegetal nativa de 518.635 km², o que equivale a 62,77% da área mapeada do bioma (MapBiomas, 2023). Porém, com o avanço da agropecuária aliada às ações antrópicas (como o desmatamento e as queimadas, por exemplo) parte das caatingas têm desaparecido ao longo do tempo, o que frisa a importância da preservação histórico-cultural para manutenção das tradições que tornam esse bioma tão bem consolidado.

O conhecimento das plantas têm sido primordial na história das civilizações, com uso desde a alimentação até o desenvolvimento da medicina natural, muito antes do método científico como conhecemos hoje ser implantado. Assim, as plantas têm ocupado um papel central no fundamento das ciências naturais há muito tempo (CAMARGO, 2015), cujo conhecimento propiciou o aparecimento de áreas de estudos voltados para a flora e a saúde, como a farmacologia vegetal e a farmacobotânica. Ademais, outro aspecto importante a ser levado em consideração nas análises fitobotânicas é o contexto etnológico das comunidades locais, que já foi explorado anteriormente no nosso texto sobre as comunidades locais da Caatinga.

Com datação de 4.000 a.C. (HELFAND & COWEN, 1990), a utilização de plantas no tratamento de enfermidades não é recente, mas a degradação massiva e constante do meio ambiente causada por impactos humanos é. Na Caatinga, muitas espécies possuem uma expressiva importância local devido ao seu uso na medicina natural e cultivo familiar, mas o extrativismo e avanço agropecuário em suas regiões (como as constantes queimadas, extração madeeira e mudanças do uso do solo) tem reduzido suas aparições ao longo do tempo (LIMA, 1999).

A seguir, listamos algumas espécies de plantas utilizadas na medicina popular da Caatinga a partir da obra “Medicina popular nas caatingas do Geopark Araripe Ceará”, de Maria Thereza Lemos, uma das maiores estudiosas da etnofarmacobotânica brasileira:

  • Umbuzeiro (Spondias tuberosa, família Anacardiaceae): o fruto do umbuzeiro, popularmente conhecido como umbu, tem seu nome derivado do tupiguarani “umbu” (y-mb-u = árvore que dá de beber), destacando-se como uma espécie nativa da Caatinga. O fruto é pequeno, arredondado e de casca lisa, com uma reserva aquosa em seu interior que ajuda a saciar a sede daqueles que o consomem além do aroma de suas flores, que as tornam uma das preferidas para a polinização. Em comunidades indígenas, as “batatas” do umbu eram utilizadas no tratamento de diarreias e controle de verminoses por conta de suas altas doses de vitamina C. Estudos realizados pela Embrapa Semiárido em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano (IF-Sertão), identificaram substâncias antioxidantes no suco do umbu, evidenciando seu potencial medicinal (FUNDAJ, 2021).

 

A esquerda, árvore do umbuzeiro (via: Shutterstock); à direita, seu fruto (via: Sonia Furtado)

  • Jurema (Mimosa tenuiflora, família Fabaceae): é uma árvore de pequeno porte e conhecida pelas “ranhuras” (acúleos) em seus ramos. Devido ao seu rápido crescimento, é uma espécie importante para a restauração de áreas degradadas (MAIA-SILVA et al., 2012). Na medicina popular, a sua casca serve como analgésico e regenerador de células devido ao seu valor antimicrobiano, o que auxilia em queimaduras, acne e defeitos da pele (CNIP, 2017).Mimosa tenuiflora - Toxicologia Veterinária

Mimosa tenuiflora em: A. fase de rebrota; B. fase de floração; C. detalhes da fase de floração, e D. vagens e sementes. Via: Julieni Bianchi Morais

  • Cumaru (Amburana cearensis, família Fabaceae): árvore típica (mas não exclusiva) do bioma, pode chegar aos 20m de altura e é caracterizada por um tronco com casca em tons avermelhados e frutos do tipo vagem com uma única semente. Também conhecida popularmente como cerejeira, pode ser confundida com a Amburana acreana, espécie encontrada na região Amazônica, com porte maior do que a citada primeiramente. Na medicina herbal, suas propriedades antiasmáticas permitem o tratamento de doenças respiratórias, além do uso no tratamento de cortes na pele e picadas de cobra. 

     

     

A esquerda, o fruto do cumaru por dentro (via: Instituto Soka Amazônia); ao meio, a árvore do cumaru (via: Projeto Verde) e, à direita, a árvore da Amburana acreana (via: Flora do Brasil).

  • Imburana-de-cambão (Commiphora leptophloeos, família Burseraceae): essa é outra espécie de imburana, pertencente à outra família e o seu uso planta engloba aspectos culturais e medicinais. Popularmente, sua madeira é utilizada na confecção de objetos caseiros como o cambão (usado para impedir a passagem de animais pelas cercas), além de ter seu óleo extraído para a produção de xaropes contra tosses, bronquites e tratamento de feridas (CNIP, 2017a).

A esquerda, foto da flor de Imburana-de-cambão (via: Ana Valeria Sbravatti); à direita, a árvore da Imburana que pode ser encontrada na Caatinga (via: Wikipedia).

Além das espécies citadas, podemos encontrar uma diversidade muito maior das plantas medicinais da Caatinga, como o Juazeiro (Zizyphus joazeiro), do qual utilizam o extrato para o tratamento de doenças gástricas e higiene pessoal (BRAGA, 1960); a Quixabeira (Sideroxylon obtusifolium) que, devido à ação hipoglicemiante (Naik et al., 1991), é utilizada para diminuir a quantidade de glicose no organismo; e a Catingueira (Caesalpinia pyramidalis), onde utilizam-se das folhas, flores e cascas para o tratamento de diarreias e em tratamentos de hepatite e anemia (por meio da casca) (EMBRAPA, 2017).

A esquerda, a árvore do Juazeiro (via: Wikipedia); ao meio, as sementes de Quixabeira (via: Flora Digital); à direita, as flores da Catingueira (via: Eulampio Duarte).

COMUNIDADES INDÍGENAS E O USO DA BOTÂNICA NAS TRADIÇÕES E RITUAIS

Até aqui, elucidamos importantes aspectos culturais e científicos das plantas encontradas na região Nordeste, mas outro aspecto muito importante na relação humano-flora é a religião. O período da colonização foi marcado por rituais e cultos ligados à cultura indígena e afrodescendente, dos quais podemos obter os primeiros registros (por meio de cantos, danças, infusões, etc.) das plantas em práticas religiosas e, também, resquícios de “domesticação” de leguminosas para a manutenção da dieta local.

A hibridização feita por comunidades indígenas foi uma ação-chave no ampliamento do cultivo de plantas que, por fatores como baixa polinização, não teriam resistido às ações antrópicas. Como exemplo, temos o tomate-cereja (Lycopersicum esculentum var. cerasiforme), domesticado e cultivado por tribos indígenas habitantes do México e que é, possivelmente, o ancestral mais próximo dos cultivos atuais (GIORDANO, 2000).

Apesar dessa importância sócio-cultural, há muitas lacunas difíceis de serem preenchidas na história indígena devido ao apagamento documental sofrido entre os séculos XVI a XX, como levantado pelo historiador Alexandre L’Omi L’Odò (2022). Hoje, baseado em dados do Povos Indígenas no Brasil, apresentaremos dois povos indígenas componentes da Caatinga e a tradição floral por trás de sua cultura. 

  • Povo Pankaru: já abordados antes no blog, falaremos um pouco mais sobre o ritual que antecede o Toré. Os Encantados, “índios vivos que se encantaram”, são as figuras centrais de sua cosmologia; os seus ancestrais envolviam cachoeiras em suas narrativas de encantamento, onde a comunicação entre o divino e a aldeia se dava pelos estrondos das águas. Transportados por sementes, os Encantados escolhem uma determinada pessoa a zelar por eles, o qual deve tecer o Praiá, ou seja, uma saia e máscara de fibras de croá (endêmica do bioma) que será exclusivamente dele. Outra planta utilizada em parte dos rituais é o buriti (Mauritia flexuosa), que confeccionará o chapéu de palha usado pelo jovem que entra no ritual do “menino do rancho”.

A esquerda, o caroá (Neoglaziovia variegata) (via: NEMA); ao meio, o ritual do Toré (via: Alta Montanha); à direita, o chapéu feito de buriti (foto: José Maurício Arruti, 1998).

  • Povo Fulni-ô: único grupo do Nordeste que conseguiu manter ativa a sua própria língua (Ia-tê), o seu ritual recebe o nome de Ouricuri (tupi uriku’ri) e referencia o nome popular da palmeira Syagrus coronata. No entanto, pouco se é divulgado sobre o ritual desse povo; apesar do Pajé e o Cacique serem figuras centrais durante o ritual, os dois atuam de comum acordo e, durante a tradição, rezam pelo bem de todos. Antigamente, a aldeia era erguida com casas de palma de ouricuri e a cada ano, com a proximidade da abertura do ritual, os indígenas levantavam suas respectivas casas e as desmontaram ao fim do mesmo.

A esquerda, o povo Fulni-ô (via: Museu Paraense); ao meio, o fruto do Ouricuri (via: David Fadull); à direita, o uso da palha de Ouricuri para a construção da casa (via: Destino Serra e Mar).

A Legislação determina, por meio do Decreto nº 5.813, de 22 de junho de 2006, a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos que estabelece “objetivos comuns voltados à garantia do acesso seguro e uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos em nosso país […] assim como ao uso sustentável da biodiversidade brasileira”. O uso de plantas medicinais em diversas culturas amplia o acesso à saúde nas áreas onde faltam recursos e dissemina o saber popular àqueles que não puderam presenciar o surgimento desses estudos. Assim, trabalhar na conservação dos ecossistemas do nosso país é uma tarefa não só voltada ao saber científico mas, também, ao respeito e preservação da nossa identidade enquanto povos multiculturais.

REFERÊNCIAS

  1. CAMARGO, Maria Thereza Lemos de Arruda. As Plantas Medicinais e o Sagrado. A Etnofarmacobotânica em Uma Revisão Historiográfica da Medicina Popular no Brasil. São Carlos: EdUFSCar, 2015.
  2. CNIP-Centro Nordestino de Informações sobre Plantas. Disponível em: <http://www.cnip.org.br/bdpn/ficha.php?cookieBD=cnip7&taxon=6324>. Acesso em: 26 jun 2024.
  3. MAIA-SILVA, C.; SILVA, C. I. da; HRNCIR, M. Guia de plantas visitadas por abelhas na Caatinga, 1. ed. Fortaleza, CE: Editora Fundação Brasil Cidadão, 2012.
  4. SANTOS, José Orlando Bispo dos; CARNEIRO, Adriele Santana da Silva Oliveira; DIAS, Ilana Marques de Souza; SABA, Marileide Dias; LIMA, Luciene Cristina Lima e; MAGALHÃES-E-SILVA, Francisco Hilder. Endemic Papilionoideae of the Caatinga: a contribution to the palynological knowledge of leguminosae. Acta Botanica Brasilica, [S.L.], v. 36, n. 1, p. 1-10, 29 abr. 2022. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/0102-33062021abb0150. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abb/a/mMHH9LLdPgH6KzV8yMkptTt/#. Acesso em: 24 jun. 2024.
  5. SILVA, Ana Carolina Oliveira da; ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino de. Woody medicinal plants of the caatinga in the state of Pernambuco (Northeast Brazil). Acta Botanica Brasilica, [S.L.], v. 19, n. 1, p. 17-26, mar. 2005. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s0102-33062005000100003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abb/a/9mGGSssLDpd8zVMZJrkrpQy/. Acesso em: 24 jun. 2024.
  6. SÁ- FILHO, Geovan Figueirêdo de; SILVA, Antonia Isabelly Bezerra da; COSTA, Elanny Mirelle da; NUNES, Luanne Eugênia; RIBEIRO, Louise Helena de Freitas; CAVALCANTI, José Rodolfo Lopes de Paiva; GUZEN, Fausto Pierdona; OLIVEIRA, Lucidio Clebeson de; CAVALCANTE, Jeferson de Souza. Plantas medicinais utilizadas na caatinga brasileira e o potencial terapêutico dos metabólitos secundários: uma revisão. Research, Society And Development, [S.L.], v. 10, n. 13, p. 1-15, 9 out. 2021. Research, Society and Development. http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v10i13.21096.
  7. [S.I.]. Jurema Preta: informações gerais. Disponível em: https://projetocaatinga.ufersa.edu.br/descricao-botanica-8/. Acesso em: 25 jun. 2024.
  8. GIORDANO, Leonardo de B.; SILVA, Cláudia. Hibridização em Tomate. Distrito Federal: Embrapa, 2000. 16 p.
  9. Helfand, W. H. & Cowen, D.L. (1990). Pharmacyan illustrated history. New York: Harry N. Abrams.Lima, J.L.S. 1999. Levantamento fitoecológico do Município de Petrolina – PE. Pp. 33-41. In: F.D. de Araújo; H.D.V. Prendergast & S.J. Mayo (eds.). Plantas do Nordeste. Anais do I Workshop Geral Kew, Royal Botanic Gardens.
  10. MATOS, F.J.A.; ALENCAR, J.W.; CRAVEIRO, A.A.; MACHADO, M.I.L. Ácidos graxos de algumas oleaginosas tropicais em ocorrência no Nordeste do Brasil. Química Nova, v.15, n.3, p.181-185, 1992. http:// submission.quimicanova.sbq.org.br/qn/qnol/1992/ vol15n3/v15_n3_%20(1).pdf 
  11. BRAGA, R. Plantas do Nordeste, especialmente do Ceará. Fortaleza: Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, 1960. 540 p.
  12. Naik, S. R., Barbosa Filho, J. M., Dhuley, J. N., & Deshmukh, V. (1991). Probable mechanism of hypoglycemic activity of bassic acid, a natural product isolated from Bumelia sartorum. Journal of ethnopharmacology, 33(1-2), 37–44. https://doi.org/10.1016/0378-8741(91)90158-a
  13. MATIAS, Janete Rodrigues. Nota Técnica 6. Embrapa, [S.I], v. 1, n. 6, p. 1-7, jan. 2017. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/173974/1/Nota-Tecnica-06.pdf. Acesso em: 01 jul. 2024.

Escrito por: Maria Eduarda Ferreira Rosinda (Estagiária voluntária do PAO).

 

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